
Johnny entrou de sola. Não estava nessa para brincar. E nem conseguia imaginar como seria diferente. Típico de quem se acha auto-suficiente e sabichão, achou que levaria a todos na conversa, fácil, fácil. Só que não foi bem assim. E Johnny viu-se numa situação de total desespero. Sozinho, sem referências, querendo dar um CTRL-ATL-DEL. Mas não podia recuar, nem apagar o que começara. Tinha que aceitar a derrota.
Mas Johnny não sabia o que era derrota. Não tinha registros. Comigo? Nãaaao, comigo é outra história. Pensam que vão me passar para trás?
Imagine uma reunião de cobras-criadas. Todos safos, preparados e cientes de seus interesses e dos resultados que pretendem. Imagine um pobre coitado designado para apresentar "umas idéias novas". Um ser triturado. Era assim que Johnny sentiu-se ao final. Aquela reunião era como uma máquina de fazer lingüiça: você entrava um homem e saía uma lingüiça.
Há que ter uma compensação a tanto desgaste. Há que se fazer uma reflexão. Afinal, qual era mesmo o que Johnny queria lá? "Ganhar" a reunião e provar (para quem?) que era fodão mesmo? Ou cumprir uma ordem superior de defender idéias que não eram necessariamente suas, sobre as quais não havia refletido em profundidade? Cumprir ordem para fazer jus ao seu pagamento. Ou seja, mais uma vez, é "tudo por dinheiro". Não fosse a necessidade de dinheiro, Johnny poderia estar fazendo qualquer outra coisa, menos estar naquela estressante reunião.
Mas agora não é hora de pensar nisso, é, Johnny? Não dá para parar a máquina, pedir para descer. Ou dá? Não sei, nunca se sabe, ninguém sabe. Johnny sente-se espremido, fuzilado, triturado em seus valores, princípios - se é que lembra de alguns deles. Só lembra que costumava refletir sobre esses tais "princípios" há anos. Mas eram outros dias. A engrenagem do trabalho, do afã de ganhar dinheiro, é que verdadeiramente move Johnny - e de resto a mundo. E com a engrenagem em funcionamento, operada pela tecnocracia, não há como descer. Não há como parar. Johnny, há salvação fora da engrenagem? Há? Dá prá parar e pensar nisso por uns segundos sequer?